A Vulnerabilidade na Arte Performática de Yoko Ono

Poucas obras na história da arte performática carregam uma vulnerabilidade tão cortante e imediata quanto 'Cut Piece', criada por Yoko Ono em 1964. A obra estreou originalmente no Yamaichi Concert Hall, em Kyoto, no Japão. A premissa era de uma simplicidade desconcertante: Yoko Ono sentava-se imóvel no centro do palco, vestindo seu melhor terno, com um par de tesouras colocado à sua frente. Uma a uma, as pessoas da plateia eram convidadas a subir ao palco, cortar um pedaço de sua roupa e levar o tecido consigo como lembrança.  A obra provoca muita reflexão em várias camadas, tais como:

  • Denúncia da violência contra a mulher. Havia uma tensão palpável no ar. Enquanto alguns cortavam o tecido educadamente, outros agiam com agressividade, testando os limites físicos e psicológicos da artista até deixá-la nua.
  • Transformação do público de mero observador em coautor da violência; cada pessoa que corta um pedaço de tecido participa ativamente da destruição e da exposição do corpo da artista.
  • Relação com a guerra. A imagem do corpo “cortado” e da roupa rasgada faz relação com as roupas das vítimas de Hiroshima e com a lógica da guerra, em que corpos são “cortados” por linhas (bombas, fronteiras, armas) que ignoram a curva da vida humana.
  • Poder político e poético que força o público a encarar sua própria participação na violência e no olhar predatório.
  • Dinâmica de gênero na época. Homens e mulheres reagiram de forma parecida no início, com hesitação, mas a performance mostrou que, com o tempo, algumas pessoas ficaram mais ousadas e agressivas. Em várias leituras, os homens aparecem mais associados ao corte mais invasivo e ao olhar sexualizante, enquanto muitas mulheres tenderam a agir com mais cuidado, algumas demonstrando culpa, medo ou desconforto, embora também participassem da violência simbólica ao cortar a roupa.
Após seis décadas, o estúdio de Yoko Ono autorizou novas apresentações ao vivo da peça. A reencenação mais emblemática ocorreu no teatro Redcat, em Los Angeles, promovida pelo museu The Broad como parte da grande retrospectiva Yoko Ono: Music of the Mind. A performance foi assumida pela respeitada artista californiana MPA. Outras releituras marcantes também aconteceram na Europa, como a versão conduzida pela cantora e performer Peaches no Gropius Bau, em Berlim. 
Nas apresentações atuais, a performance reflete duas grandes motivações do público moderno: o desejo de vaidade digital, onde as pessoas fazem fila no palco para conseguir um "souvenir" e registrar sua participação na era das redes sociais, e, ao mesmo tempo, uma maior consciência sobre o consentimento, resultando em cortes mais cuidadosos. No entanto, mesmo com essa postura mais colaborativa, o desconforto psicológico ressurge assim que a tesoura avança sobre as roupas íntimas, provando que a obra ainda consegue chocar ao expor a vulnerabilidade e a invasão da intimidade da artista. A genialidade de Cut Piece reside no fato de que ela não é uma obra estática. Ela funciona como um espelho da sociedade que a assiste. Bravo Yoko!
Yoko Ono, nascida em Tóquio no Japão, é uma artista plástica, cantora, compositora, cineasta e uma das precursoras do estilo rock experimental. Também reconhecida por seu ativismo em prol da paz e por seu casamento com John Lennon, que foi assassinado na sua frente. Nascida em uma família muito rica, pôde estudar nas melhores instituições dentro e fora de seu país. Sua arte tem por objetivo sensibilizar e conscientizar empenhando-se diretamente em causas pacifistas, em prol do meio ambiente, da liberdade sexual e de gênero, da igualdade racial, do controle de armas e do feminismo.