Palmira era filha de imigrantes italianos que viviam em São Roque, SP. Logo após perder o pai, ainda menina, foi levada para um colégio interno em São Paulo, onde ficou alguns anos. Tudo porque a mãe dizia que ela era muito levada! Que dureza, quanta solidão ela deve ter sentido até que sua irmã, Angelina, sua heroína e já casada, a resgatou. Juntas, elas foram acompanhar o marido de Angelina, o engenheiro Marmo, na construção de uma estrada que ligaria Curitiba à Bocaiúva do Sul, no Paraná. Nesses meses, um cavaleiro bonitão da região se aproximou, e com o final da obra, ou ela se casava ou nunca mais o veria. Ela se casou.
Alcebiades, meu avô, filho de um alemão com uma indígena, era um homem do campo, analfabeto e evangélico. Imagine... Palmira vinha de um colégio de freiras, adorava ler romances e não sabia nada do campo. A vida foi dura para ela nesse tempo; sentia falta da família, da comida, dos livros e, nessa época, acabou perdendo seu primeiro filho com menos de um mês de vida. Ali, ela também era mal julgada por não saber cozinhar e por ser moça da cidade grande.
Com a perda do filho, ela conseguiu voltar para a cidade, e foi então que meu avô queimou todos os livros que ela tinha para que se dedicasse mais à casa e à igreja. Que dó! Toda vez que ela me contava essa passagem, me doía o coração. Assim, ela transferiu toda essa sede de cultura e imaginação para a Bíblia e as agulhas.
Então, na minha triagem das coisas, buscando destinos dignos, me vi com algumas peças, e entre elas, um caminho de mesa feito por ela, que estava há décadas na gaveta. Assim, quando soube do trabalho de Sonia, a procurei para saber se ela teria interesse na toalha e outras peças desse gênero, que eram parte do meu enxoval, e a resposta foi super receptiva. Obrigada, Sonia, por receber parte da minha história e ressignificá-la com suas mãos de ouro!
Sonia Gomes é uma artista visual afro-brasileira nascida em Caetanópolis, Minas Gerais, em 1948. Atualmente, vive e trabalha em São Paulo. Sonia é conhecida por criar arte a partir de objetos descartados, como roupas e tecidos, que carregam memórias e histórias emocionais. Ao costurar e torcer esses materiais, ela sintetiza a memória e a identidade brasileira em suas obras tridimensionais, explorando questões raciais e culturais. A artista foi influenciada pela avó, que a ensinou costura e trançados, e pelo fascínio pelas tradições africanas. Suas obras foram exibidas em instituições renomadas, como o MASP e a Bienal de Veneza, destacando sua contribuição para a arte contemporânea brasileira.
“Minha ligação com a arte vem desde sempre. Nasceu comigo.
Eu não sabia que era arte, mas depois que eu descobri.”
Sonia Gomes
Mais sobre ela, aqui!
#SoniaGomes
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